Assunto repetido, mas às vezes é necessário enfrentar um Auto-de-Fé.
Para Kerouac, Deus era a Ursa Maior. Para alguns nerds de hoje (sim, Kerouac era nerd. O cara colou rolos de teletipo para não ter que trocar o papel na máquina de escrever, inventando o primeiro Kindle do mundo), a divindade pode ser vista em um emaranhado de macarrão flutuante.
Uma das minhas esquisitices é curtir beisebol. A origem desse interesse é a admiração natural pela produção americana no século XX. Sinto muito, ninguém fez o que os caras fizeram, em termos de arte, indústria, ciência, escolhe aí.
Claro, há uma epidemia longeva de anti-americanismo por aí, renovada a cada evento catastrófico como a crise dos mercados. Não é uma doença grave, e sim uma infecção oportunista de um mal maior, a imaturidade. But I digress.
A imprensa esportiva americana, sabendo que seu trabalho deve ter um pouco mais de bom humor e um tanto menos de seriedade do que o de seus colegas da "imprensa propriamente dita" (o trecho entre aspas, no caso, é de um jornalista da CBN), adora a figura da "maldição". É talvez o principal traço cultural deles, ao lado da paixão absurda pela estatística.
O Boston Red Sox ficou sem ser campeão entre 1918, quando decidiu vender Babe Ruth para o Yankees para bancar uma dívida de jogo e bebida de seu proprietário, e 2004, quando os Yankees anunciaram que iriam demolir seu estádio, "a casa que Ruth construiu", revertendo, então, a "maldição". Torcedores do Chicago Cubs não comemoram um título desde 1908. Em 1945, quando a série sem vitórias iria cair, um torcedor que levou seu bode a todos os jogos da temporada foi proibido de entrar com o animal no estádio na grande final. Os Cubs perderam, e nunca mais voltaram à final. O esporte americano tem mais centenas de histórias como essas
Pois bem. O Philadelphia Philles quebrou nesta quarta-feira uma dessas "maldições", ao derrotar o Tampa Bay Rays e faturar o título de campeão mundial de beisebol (sim, que se fodam os times profissionais de Japão e Venezuela). Uma lei "informal" determinava que nenhum prédio na cidade de Filadélfia, berço da democracia americana - e, por que não, mundial? - poderia ser mais alto que o topo da câmara municipal da cidade, construída em 1901. Ali, descansa uma estátua de bronze de William Penn, fundador da província de Pensilvânia. O topo de seu chapéu de três pontas está a 167 metros do chão.
Pois bem. Em 1983, a prefeitura autorizou a construção do primeiro de uma série de prédios modernos na cidade. Nada muito Dubai, apenas torres de pouco menos de 300 metros. Curiosamente, foi o ano do último título conquistado por uma equipe profissional da cidade em qualquer esporte, quando o 76ers venceu o LA Lakers na final da NBA. Daí pra frente, nada. No hóquei, o Flyers chegou à final da Stanley Cup duas vezes, e não passou do vice. O 76ers perdeu agora pouco, em 2001, a final para os Lakers. Entre 2001 e 2004, o Eagles, equipe de futebol americano, foi parado nas fases finais. Até mesmo o time de beisebol teria sofrido com a macumba, ao perder a World Series em 1993 para um time canadense.
Hoje, acabou. Não há um motivo para o fim das maldições, às vezes elas simplesmente acabam. Conheci Filadélfia em 1998, e não me pareceu uma cidade amaldiçoada, talvez apenas um pouco menos "abençoada" que suas vizinhas no nordeste americano. Melhor do que eu ficar falando aqui é você ver o novo Rocky: há um ar de decadência um tanto inexplicável, apesar do orgulho bairrista dos moradores parecer intacto.
Ficaí uma set list bem curta só com músicas inspiradas pela cidade para quem quiser comemorar a queda da maldição de Billy Penn. Bom para ouvir comendo um sanduíche bem light, como o cheesesteak, um soft pretzel e bebendo Hires Root Beer: